Orientação ao paciente

Coluna travada: crise lombar, sinais de alerta e recuperação

28 nov 2022
fim da coluna travada

Coluna travada é uma forma comum de descrever dor lombar aguda com espasmo, rigidez e dificuldade para se movimentar. Apesar do susto, nem sempre significa lesão grave; a avaliação identifica sinais de alerta e orienta a retomada segura das atividades.

Quando alguém chega em meu consultório com a coluna travada, antes de fazer o levantamento do seu histórico de saúde, minha primeira atitude é ser empático. Isso porque sei que esse paciente não está só.

Afinal, ter dor nas costas é uma das razões mais comuns pelas quais as pessoas procuram ajuda médica, especialmente o pronto socorro, além de ser a causa mais frequente das faltas no trabalho.

A literatura médica sobre o assunto revela que 23% de toda a população do mundo sofre com esse problema de forma crônica e que, ao longo da vida, mais de 8 em cada 10 adultos do globo poderão apresentar o sintoma. E não escapam dessas estatísticas nem mesmo as crianças, os adolescentes e jovens.

Aliás, aos 18 e 20 anos, metade das mulheres e dos homens, respectivamente, já terão passado por algum episódio desse tipo.

Para entender porque a dor lombar (lombalgia) ou cervical aparecem, antes, explico ao meu paciente um pouco da anatomia de sua coluna vertebral. Na maioria das vezes, a região lombar é a parte mais afetada.

E ela é formada por cinco vértebras – conhecidas como L1-L5, cuja função é dar suporte ao tronco.

No espaço existente entre cada uma dessas vértebras existem estruturas – os discos intervertebrais – que agem como “amortecedores” de todo movimento que a sua coluna faz.

As vértebras são mantidas no lugar por meio dos ligamentos e tendões que conectam os músculos à coluna. A região também possui 31 pares de nervos que estão enraizados na medula espinhal. Eles mantêm os movimentos sob controle e ainda enviam sinais do seu corpo para o cérebro.

A coluna ainda é composta do segmentos cervical (pescoço), torácico (parte superior das costas), sacral e coccígea (parte inferior da região lombar).

Dor Aguda x Crônica

Nomear a região, o trajeto da dor, os fatores de piora e a limitação funcional ajuda a consulta a separar lombalgia, cervicalgia, dor irradiada e sinais de alerta. No caso da lombalgia e da dor cervical, os incômodos podem variar de intensidade e duração no tempo.

Por vezes aparecerão de repente, imediatamente após um movimento brusco ou o levantamento de algum peso, ou poderão durar por alguns dias e até semanas. A esse tipo de dor chamamos de aguda – a mais frequente.

Mas pode acontecer de a dor durar por 12 semanas ou mais – a esta chamamos de dor crônica. O mesmo se dará para 2 em cada 10 indivíduos com dor aguda persistente ao longo de 1 ano.

Justo eu?

Na hora da crise, porém, as pessoas querem logo saber o que fizeram de errado e como podem resolver rapidamente o problema. Então explico que a presença de determinados fatores podem aumentar a chance de ter uma lombalgia. Saiba quais são eles:

Genética – enfermidades como a espondilite anquilosante e doenças reumatológica têm componentes genéticos; Idade – as primeiras crises podem ocorrer entre 30 e 50 anos;

com o avanço da idade, ossos, músculos, discos também passam por processos degenerativos que podem levar ao problema; Condicionamento físico – sedentários têm maiores chances de ter dor nas costas, assim como os atletas de fim-de-semana; Peso – obesidade e ganho rápido de peso podem colocar a coluna sob maior pressão;

Saúde mental e sono – ansiedade, depressão, insônia e estresse persistente podem aumentar sensibilidade dolorosa e dificultar recuperação; Atividade profissional – tempo sentado, levantamento de carga, vibração, pressa, pausas insuficientes e retorno brusco após crise mudam a tolerância da coluna.

Tabaco – provoca rápida degeneração dos discos, dada a restrição de circulação sanguínea e

fluxo de oxigênio.

Fachada do CEIMEC na Alameda Jaú 687

Possíveis origens da dor lombar

Ela pode ter causas variadas. Entretanto, na maioria das vezes, as principais são de origem mecânica, que se relacionam a algum problema na estrutura local que compreende coluna, discos, músculos e nervos. Confira a seguir:

Problemas congênitos

escoliose, lordose, cifose etc.; Lesões

entorses, estiramento de músculos ou nervos, contrações repentinas, traumas decorrentes da prática de esportes, acidentes, quedas que comprometam tendões, ligamentos e músculos ou provoquem a compressão da coluna ou ruptura de discos; Problemas degenerativos

– desgaste natural dos discos, espondilose, artrite ou outras doenças inflamatórias; Problemas nos nervos ou medula espinhal

compressão, inflamação ou lesão no nervo espinhal; compressão do nervo ciático; estenose espinhal; espondilolistese; hérnia de disco; infecções (p.ex. osteomielite); osteoporose etc.

Pode até ocorrer de a dor não ter origem nessas estruturas. Nesses casos, a fonte do problema poderiam ser pedras nos rins, endometriose, fibromialgia, tumores e até mesmo gravidez.

Entenda a Hérnia de disco

Quando o anel fibroso enfraquece, seja pela degeneração natural decorrente do processo do envelhecimento, ou mesmo por alguma falha genética, a hérnia aparece, geralmente na região lombar.

São duas as situações possíveis nesses casos, e ambas levam à compressão da raiz nervosa local: trata-se da protrusão e da extrusão.

Na primeira, o núcleo pulposo causa um abaulamento e pressiona o anel fibroso (imagine um pneu com uma bolha); na segunda, o anel fibroso rompe o seu conteúdo, que extravasa (a bolha do pneu se rompe e se espalha).

Ambulatório de ensino e atendimento do CEIMEC

A conversa com o médico

Sanguíneos – podem revelar infecções, artrite, inflamação, tumores etc.; Radiografia – auxilia na detecção de fratura, desgaste e até sinais de infecção óssea;

Discografia – essa radiografia avalia as dondições gerais dos discos vertebrais; Eletromiografia (EMG) – analisa a atividade elétrica de músculos para saber se a fraqueza deles decorre dos nervos que os controlam; Tomografia computadorizada – mais potente que a radiografia, mostra rupturas no disco, estenose e até tumores; Ressonância magnética – recria a imagem das estruturas ósseas, músculos, ligamentos, tendões e vasos.

É útil quando há suspeita de infecção, tumor, hérnia,ruptura de disco ou pressão sobre nervos.

De volta à vida normal

Enquanto a dor é intensa, fica difícil acreditar que essa sensação vai passar. A literatura sugere que muitos quadros agudos de dor lombar melhoram em algumas semanas, desde que não haja sinal de alerta, déficit neurológico, trauma relevante, infecção, fratura ou outra complicação.

Quando a dor é aguda, o repouso é contraindicado e geralmente lança-se mão das seguintes estratégias:

Medicamentos  –  analgésicos, anti-inflamatórios não esteroidais (AINES), relaxantes musculares, medicações tópicas como cremes ou pomadas para alívio da dor local. Embora elas aliviem a dor, sozinhos não têm eficácia.

Compressas  –   quente ou fria, ela reduzem a dor e também a inflamação; Exercícios  –  os de alongamento moderado são aliados, desde que orientados por um fisioterapeuta.

Já se a dor é crônica…

… o tratamento deve, antes, concentrar-se na causa original da dor. Na crise lombar, medicação, orientação de movimento, reabilitação e procedimentos têm papéis diferentes conforme déficit, irradiação e duração da dor.

Na coluna travada, o plano começa por sinais de alerta, controle da crise e retorno gradual ao movimento; procedimentos entram quando há indicação. Confira:

Medicamentos – anti-inflamatórios (AINES) e analgésicos; analgésicos mais potentes; anticonvulsivos; antidepressivos; Exercícios – é indicada atividademoderada para fortalecimento do tronco e dos músculos abdominais, desde que devidamente orientados pelo médico; Acupuntura médica

a estratégia é recomendada pela Sociedade Americana da Dor e pelo Colégio Americano de Médicos, especialmente quando os pacientes não respondem às práticas caseiras.

É considerada efetiva para o controle da dor, já que estimula naturalmente a ação de substâncias analgésicas como a endorfina e a serotonina; Estimulação Elétrica Transcutânea dos Nervos (TENS): trata-se de um aparelho usado pelos fisioterapeutas para bloquear ou modificar a percepção da dor.

Aliás, a fisioterapia é um dos pilares do tratamento da dor lombar; Cirurgia – prática rara, ela só se justifica quando não há resposta às intervenções anteriores, na presença de danos neurológicos, fraqueza, alteração do controle dos esfícnteres ou no aumento da movimentação de duas vértebras que gera instabilidade (espondilolistese).

Em alguns casos, técnicas minimamente invasivas para infiltração de medicamentos (corticóides e anestésicos) podem ser feitas em ambientes hospitalares, até mesmo entre idosos.

Estrutura clínica do CEIMEC em São Paulo

Quando a “travada” for na região cervical

Muitas vezes, a dor que impede os movimentos acomete a região cervical. Diferentemente da dor lombar, a origem desse desconforto pode estar em algum músculo, ou no tecido que o reveste – a fáscia.

Dada as características desse quadro, que pode se manifestar em várias partes do corpo, mas também em uma região específica, ele é definido como Síndrome da dor miofascial. Nessa parte da coluna, os músculos envolvidos podem ser os rombóides, o trapézio, a escápula, o infraespinhal e supraespinhal.

Tão comum quanto a dor lombar, ela está presente em 8 entre cada 10 pacientes com dor crônica, principalmente na faixa etária que compreende os 30-40 anos, sejam eles homens ou mulheres, embora estas sejam as mais afetadas.

A boa notícia é que, com o envelhecimento, essas crises vão se tornando cada vez menos frequentes.

A crise lombar pode aparecer após esforço acima da tolerância, trauma, movimento brusco, longos períodos em uma mesma posição, sono ruim, descondicionamento ou aumento rápido de carga. A consulta precisa localizar a dor, testar movimento, força, sensibilidade e sinais de alerta.

Outro dado importante é que algumas pessoas são mais propensas a ter esses pontos de dor quando possuem contraturas das bandas musculares, que podem permanecer latentes até que alguns dos fatores desencadeantes citados apareçam.

A literatura mais atual sobre o assunto revela que há indícios de que esses pacientes tenham níveis aumentados de um neurotransmissor relacionado à dor, a acetilcolina. Tal particularidade levaria à tensão muscular e à formação de “nós” que comprimem os vasos sanguíneos, estimulando a dor.

Alívio da dor cervical

Assim como no tratamento da dor lombar, o alívio da dor cervical, bem como o espaçamento das eventuais crises requerem a combinação de várias práticas, além da colaboração do paciente que deve investir em atividade física e maior atenção à postura.

Importante saber que tais iniciativas só fazem o efeito quando realizadas de forma regular e sincronizada.

Além disso, a estratégia terapêutica prevê o uso dos mesmos medicamentos usados para a dor lombar, incluída apenas a utilização da toxina botulínica, que é capaz de inibir as contraturas.

Uma recente revisão de estudos sobre as melhores opções terapêuticas para esse quadro colocou a acupuntura médica e a reabilitação na base do plano terapêutico.

A primeira se destaca em razão dos provados benefícios para o alívio da dor; já a segunda contribui com a técnica de liberação miofascial, exercícios de fortalecimento e alongamento que restauram o equilíbrio muscular, inclusive das áreas circundantes. Ultrassom e laser aparecem como abordagens em estudo para alguns contextos musculoesqueléticos.

A pesquisa foi publicada na revista médica Pain and Therapy.

Auditório do CEIMEC para aulas e eventos médicos

Um conselho médico

Meus pacientes sempre me perguntam o que devem fazer para prevenir esses episódios tão dolorosos e incapacitantes. A minha resposta é sempre a mesma: a sua primeira providência é um não fazer. Isso porque a melhor forma de prevenir a dor é não ignorá-la e procurar ajuda médica.

Quanto mais cedo você tiver orientação e apoio profissionais, maiores são as chances de se livrar desse incômodo. Se não para sempre, por longo período de tempo.

Sugiro também que se coloque em prática as seguintes medidas: Considere parar de fumar. O tabaco está relacionado à degeneração discal, além de aumentar o risco para a osteoporose. Até a tosse decorrente do cigarro agrava a dor lombar;

Exercite-se regularmente e de acordo com sua idade. O foco deve ser o fortalecimento da musculatura das costas e do abdome. Exercícios de alongamentos são também indicados;

Controle o peso e mantenha uma dieta saudável rica em cálcio, fósforo e vitamina D para fortalecer os ossos;

Invista em móveis ergonômicos em casa ou no trabalho;

Mude de posição na cadeira durante o trabalho, levante-se e alongue-se a cada 1 hora.. Suporte para os pés abaixo da mesa são recomendados, especialmente quando se trabalha por longo tempo na posição sentado;

Use sapatos confortáveis e evite saltos muito altos;

Tente dormir na posição fetal, com o apoio de um travesseiro entre as pernas. Isso alivia a pressão sobre as vértebras;

Prefira colchões firmes;

Atente-se à forma como levanta peso: você deve flexionar os joelhos, usar a força das coxas e manter o objeto próximo ao corpo. Evite manter a perna reta e flexionar a coluna.

Referências: Ministério da Saúde;NHI (National Center for Complementary and Integrative Health);

Low Back Pain, NHI (National Institute of Neurological Disorders and Stroke), 2020; Jeffrey Touma et alii. Cervical Myofascial Pain. StatPearls.

NCBI. 2020; Amir Qaseem et alii. Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians.

Ann Intern Med., 2017; Lizhou Liu et alii.

Acupuncture for Low Back Pain: An Overview of Systematic Reviews. Evid- Based Compl Alt. 2015; Kamper SJ, Apeldoorn AT et alii.

Multidisciplinary treatment for back pain. Cochrane.

Coluna travada significa hérnia de disco?

Não necessariamente. Espasmo muscular e lombalgia mecânica são frequentes. Sintomas neurológicos ou dor irradiada mudam a avaliação.

Devo ficar de repouso absoluto?

Repouso absoluto prolongado geralmente não ajuda. O ideal costuma ser manter movimento leve dentro do tolerável, com orientação.

Acupuntura pode destravar a coluna?

A acupuntura pode ajudar no controle da dor e relaxamento em alguns casos, mas a melhora depende do diagnóstico e do plano de cuidado.

Coluna travada: o que costuma estar acontecendo

A sensação de coluna travada geralmente mistura dor, espasmo muscular, proteção do movimento e medo de piorar. Em muitos casos, o corpo reduz a amplitude para proteger uma região irritada. Isso pode acontecer depois de esforço, treino, ficar muito tempo sentado, levantar peso, dormir mal ou retornar a uma atividade sem progressão.

Mesmo quando a dor é intensa, nem sempre significa lesão grave. A prioridade é separar lombalgia mecânica comum de sinais de alerta: trauma importante, febre, perda de peso, câncer prévio, déficit neurológico, alteração urinária ou intestinal, dor progressiva e fraqueza.

Tratamento: destravar não é forçar

O tratamento costuma combinar orientação, redução temporária de carga irritativa, movimento gradual, analgesia quando indicada e retorno progressivo à rotina. Repouso absoluto prolongado tende a piorar rigidez, medo e perda de condicionamento.

Acupuntura pode ser considerada quando o objetivo é modular dor, reduzir espasmo e facilitar a retomada de movimento. A resposta deve ser acompanhada por capacidade de sentar, caminhar, dormir, trabalhar e voltar ao exercício com segurança.

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hong jin pai
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Médico especialista em Acupuntura, formado pela Faculdade de Medicina da USP, com especialização e pós-graduação em Acupuntura na China. Fundador e Coordenador do CEIMEC. Doutorado em Ciências pela USP. Professor Colaborador do Instituto de Ortopedia do HC-FMUSP.