Alguns quimioterápicos podem lesar os nervos periféricos. Quando isso acontece, você sente formigamento, queimação, dormência ou choque nas pontas dos dedos das mãos e dos pés, quase sempre nos dois lados — o padrão que se descreve como “luva e meia”. Taxanos, platinas, alcaloides da vinca e bortezomibe são os esquemas mais associados a esse efeito.
Não é só desconforto. A perda de sensibilidade nos pés tira equilíbrio e aumenta o risco de queda; nas mãos, tira precisão para abotoar, escrever e segurar objetos. E a intensidade desse efeito pode influenciar decisões sobre a dose do seu tratamento.
Por isso, a regra prática mais importante deste texto é simples: fale sobre o formigamento cedo, no ciclo em que ele começar, e não no fim do tratamento. Quanto antes a equipe de oncologia souber, mais opções ela tem.
Quanto tempo isso costuma durar
Os sintomas em geral aparecem depois de alguns ciclos e podem continuar piorando por algumas semanas mesmo depois da última dose. Isso surpreende muita gente, mas é conhecido: o efeito sobre o nervo tem uma inércia.
Depois desse período, a tendência é de melhora lenta. Boa parte das pessoas melhora ao longo dos 3 a 6 meses seguintes ao fim do tratamento, e uma parte fica com alguma dormência residual por mais tempo. Aqui a melhora se conta em meses, não em semanas — o que não é o mesmo que dizer que não melhora.
Se você estiver usando medicação para a dor, conte de 4 a 6 semanas na dose ajustada antes de concluir se ela ajudou ou não.
O que fazer hoje
- Olhe as mãos e os pés todo dia. Procure corte, bolha ou queimadura que você não sentiu acontecer. Com a sensibilidade reduzida, a lesão vem antes do aviso.
- Teste temperatura com uma parte do corpo que ainda sente bem — água do banho, panela, forno. Não confie na ponta dos dedos.
- Use sapato fechado, inclusive dentro de casa.
- Prepare o caminho da noite: tire tapetes soltos, deixe uma luz acesa no corredor e use o corrimão da escada sempre, mesmo quando parece desnecessário.
- Levante devagar da cama e da cadeira, e espere alguns segundos em pé antes de andar.
- Para as mãos: engrosse cabos de talher e canetas com fita ou espuma, use abridor de potes, troque botões pequenos por fecho maior ou velcro. Adaptar a tarefa funciona melhor do que insistir na mesma pegada.
- Se você usa oxaliplatina e sente choque ou desconforto ao pegar algo gelado, evite bebidas e superfícies frias nos primeiros dias depois de cada ciclo.
- Não pule nem reduza dose por conta própria. Essa decisão é da equipe que acompanha o seu tratamento.
Quando avisar a equipe no mesmo dia
- Febre de 38 °C ou mais, ou calafrio — durante a quimioterapia isso é urgência, com ou sem neuropatia
- Fraqueza nova que piora em poucos dias
- Dificuldade nova para subir escada ou levantar da cadeira
- Uma queda
- Dor nas costas nova e forte, principalmente se piora deitado ou à noite
- Uma faixa no tronco abaixo da qual a sensibilidade mudou
- Dificuldade nova para segurar ou para esvaziar a urina ou o intestino
- Ferida, bolha ou queimadura em um pé ou numa mão que você não sentiu acontecer
A maioria das pessoas em tratamento não vai apresentar nenhum desses sinais, e nenhum deles significa automaticamente que o câncer avançou. O que eles mudam é a urgência: são situações em que o quadro não deve ser atribuído à quimioterapia sem antes ser examinado.
O padrão dos sintomas ajuda a saber a causa
Dormência simétrica, começando pelas pontas dos dedos das mãos e dos pés, durante um tratamento que sabidamente pode lesar nervos, é o quadro compatível com neuropatia induzida por quimioterapia.
Já sintomas claramente piores de um lado, fraqueza que domina o quadro, ou uma faixa do corpo abaixo da qual a sensibilidade mudou apontam para outro diagnóstico, e precisam ser investigados como tal.
Taxanos, platinas, alcaloides da vinca e bortezomibe também não seguem a mesma cronologia entre si. Por isso importam três informações que só você tem: o nome do medicamento, o ciclo em que o sintoma começou e como ele mudou de um ciclo para o outro.
Nem todo formigamento durante o tratamento vem dele
Diabetes, falta de vitamina B12, compressão de uma raiz nervosa na coluna, síndrome do túnel do carpo, neuropatia que você já tinha antes, uso importante de álcool e metástases podem coexistir com o efeito da quimioterapia. Algumas dessas causas têm tratamento próprio, o que é justamente o motivo de não atribuir tudo automaticamente ao quimioterápico.
A eletroneuromiografia — exame que mede a função dos nervos e dos músculos — não é confirmação de rotina. Ela ganha utilidade quando os sintomas são assimétricos, quando há perda importante de força, quando ficam concentrados em uma área só, ou quando há dúvida entre neuropatia difusa, compressão de raiz nervosa na coluna e compressão de um nervo em um ponto específico.
Duloxetina trata dor, não toda a neuropatia
A duloxetina é a única medicação com evidência adequada para a neuropatia dolorosa induzida por quimioterapia. Vale ler essa frase com atenção: para a dor. No ensaio clínico, o benefício médio sobre a dor foi modesto.
Ela pode reduzir queimação ou dor em parte das pessoas. Ela não corrige necessariamente a dormência, o desequilíbrio, a perda de destreza nas mãos ou a fraqueza. Se o seu problema principal é não sentir o chão, e não a dor, é provável que a resposta esteja mais na reabilitação e na segurança do que num comprimido.
Prevenir antes que apareça: o que se sabe hoje
Para prevenir a neuropatia antes que ela apareça, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) não recomenda nenhum medicamento. Resfriamento controlado das mãos ou dos pés durante a infusão (crioterapia), compressão, exercício e acupuntura ainda não têm evidência suficiente para uma recomendação preventiva.
Isso é diferente de evitar o frio quando você usa oxaliplatina: nesse caso, o frio dispara os sintomas que já existem, e evitá-lo é conforto, não prevenção.
Um exercício diário para reduzir o risco de queda
Se os pés não informam bem onde estão, a perna precisa compensar com força. Levantar da cadeira é o gesto que mais protege contra queda, e dá para treinar em casa.
- Use uma cadeira firme, sem rodinhas, encostada na parede. Fique calçado.
- Sente com os pés afastados na largura do quadril, bem apoiados no chão.
- Incline o tronco um pouco à frente e levante-se sem usar os braços.
- Sente de novo devagar, contando 3 segundos na descida — a descida controlada é a parte que mais treina força.
- Faça 10 repetições, descanse 1 minuto, e faça mais 10. Uma vez por dia.
Se ainda não dá para levantar sem os braços, use os braços: o exercício continua valendo. Se você sente tontura ao levantar, faça com alguém por perto e converse sobre isso na próxima consulta.
Exercício, treino de equilíbrio e terapia ocupacional abordam instabilidade, risco de queda e tarefas que ficaram difíceis. Não são tratamento para regenerar o nervo, e é importante saber disso antes de começar. A meta é preservar função e segurança enquanto o nervo se recupera no ritmo dele.
Leve isto para a consulta
- O nome do quimioterápico e em qual ciclo o formigamento começou.
- Como os sintomas mudaram do ciclo anterior para este: iguais, um pouco piores, muito piores.
- Até onde sobe a dormência — só as pontas dos dedos, até o meio do pé, acima do tornozelo.
- O que você deixou de conseguir fazer: abotoar, escrever, virar chave, segurar copo, andar no escuro, descer escada.
- Se houve queda ou quase-queda, e quantas vezes.
- Se você tem diabetes, usa metformina, bebe com frequência ou já tinha formigamento antes do tratamento.
- Se os sintomas são iguais nos dois lados ou piores de um lado.
O que a acupuntura faz — e o que não faz
Acupuntura não tem evidência suficiente e consistente para tratar essa neuropatia. Essa é a informação honesta, e ela vale tanto para prevenir quanto para tratar o quadro instalado.
Se você optar por fazer, ela não deve atrasar três coisas: contar à equipe de oncologia que o efeito nos nervos apareceu, a revisão do esquema de quimioterapia quando ela for necessária, e as medidas de segurança e reabilitação descritas acima.
Perguntas frequentes
A neuropatia melhora quando a quimioterapia terminar?
Costuma melhorar, mas devagar, e às vezes só depois de piorar um pouco nas primeiras semanas após a última dose. Boa parte da recuperação acontece nos 3 a 6 meses seguintes; alguma dormência pode permanecer.
Vou precisar reduzir ou parar o tratamento?
Talvez, e essa decisão é da equipe de oncologia. Atrasar, reduzir, trocar ou interromper o medicamento depende do benefício dele contra o tumor e do efeito sobre os seus nervos. É exatamente por isso que avisar cedo importa: quanto antes, mais espaço existe para ajustar sem perder controle da doença.
Gelo nas mãos e nos pés durante a infusão previne?
Não há evidência suficiente para recomendar. A ASCO não indica crioterapia, compressão, exercício, acupuntura nem qualquer medicamento como prevenção.
O formigamento significa que o câncer se espalhou?
Na maioria das vezes, não: o padrão simétrico em luva e meia é o efeito do medicamento sobre os nervos. O que precisa ser examinado com prioridade é o quadro assimétrico, a fraqueza que domina, a dor nova nas costas e a mudança de sensibilidade em faixa no tronco.
Referências
Clínica Dr. Hong Jin Pai & Associados
Neuropatia na quimioterapia pede coordenação com a oncologia
Distribuição dos sintomas, equilíbrio, quedas e impacto nas mãos e pés são registrados sem perder a ligação com o esquema de quimioterapia.
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Médico Fisiatra e Acupunturista, com Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Médico Coordenador e Colaborador do CEIMEC.
