Incoerência entre as duas traduções do livro Nei Jing e suas consequências para a saúde pública

Dr. Hong Jin Pai*

“O profissional que traduz textos médicos tem uma grande responsabilidade, pois leva de um idioma a outros textos traduzidos cujo conteúdo pode significar a prevenção, o controle e o prolongamento de uma vida”.

 José Antonio López Espinosa

Durante o período de organização do próximo Congresso do CMBA (setembro de 2011) houve uma troca de correspondência entre os palestrantes. Um dos temas abordados foi a chamada teoria dos cinco movimentos (cinco elementos, segundo outra versão), pouco usada, atualmente, nas faculdades de Medicina Tradicional Chinesa (MTC) na China; porém ainda sendo um dos conceitos utilizados por uma corrente da acupuntura médica brasileira, e difundida pelo Dr. Nguyen Van Nghi.

Nesse período, a Dra. Marcia Yamamura ofereceu-me gentilmente três livros editados pela Center AO – Centro de Pesquisa e Estudo da Medicina Tradicional Chinesa – para que eu conhecesse melhor os conceitos desenvolvidos pelo médico vietnamita. Os livros em apreço foram:

  • Huangdi Neijing Ling Shu, edição comentada
  • Semiologia e Terapêutica em Medicina Chinesa
  • Propedêutica Energética da Língua & Pulsologia Chinesa

Após uma leitura criteriosa das obras, observei alguns problemas conceituais já no início dos livros, que poderiam ser atribuídos às dificuldades de tradução e interpretação da língua chinesa, reconhecidamente complexa. Tais problemas poderiam ser atribuídos, portanto, a erro de tradução do chinês para o francês, idioma em que surgiram as primeiras traduções sobre acupuntura para ocidentais, ou a erro de tradução do francês para o português. Além do que, uma livre interpretação da filosofia que orienta a MTC também não pode ser descartada como fonte de equívocos.

Dentre os problemas de natureza histórica verificados, cito, entre outros:

  • Cronológicos:

1.a - a dinastia Han, com periodização atribuída de 206 a.C. a 580 d.C., em uma das obras citadas acima, é equivocada. Existiram duas dinastias Han: Han do Oeste (206 a.C. a 24 d.C.) e Han do Leste (25 d.C. a 220 d.C.). Essa não é uma informação menor, pois foi durante a dinastia Han que ocorreu a primeira grande sistematização dos clássicos da MTC, com orientação de várias tendências filosóficas da época, como a taoísta.

2.b - Hua Tuo (141-208 a.C.) – na verdade viveu de 141 a  208 d.C. Esse grande médico chinês, a quem são atribuídas as primeiras experiências cirúrgicas da MTC, bem como o uso de anestésicos, viveu durante a dinastia Han do Leste e o período do Três Reinos, na era cristã, portanto. Essa informação também é muito importante, pois esse período foi marcado por guerras internas, o que contribuiu para as experiências desenvolvidas pelo médico chinês.

     2. Quanto às questões conceituais, vale mencionar um problema comum a várias, senão a todas as traduções ocidentais dos cânones da MTC. Os termos energia e energético foram criados no início do século 20 como conceitos que traduzem o ideograma [Qi]. Essa adaptação tinha como propósito tornar a MTC mais identificada com a ciência ocidental que se desenvolvia naquele período. Esses termosutilizados na tradução brasileira da obra do Dr. Nguyen Van Nghi, Propedêutica Energética da Língua & Pulsologia Chinesa, não existe nos livros chineses, e precisam ser revistos.
O Qi, conforme o dicionário da Medicina Chinesa editado pela Editora Tecnológica de Guangton (1982), significa:

  • ar, ar em movimento
  • microsubstância (que pode ser poluentes, glicose, albumina, íons etc)
  • energia (velocidade, temperatura)
  • atividades funcionais, tais como as funções dos órgãos, emoções etc.
  • produção, transformação
  • sua combinação com outro ideograma, pode adquirir outro significado

Por isso, evitamos traduzir o Qi simplesmente como energia.

Ainda no primeiro capítulo dessa obra, que trata das nove agulhas e dos doze Yuan, os ideogramas [??????] formam uma expressão chinesa antiga, muito popular e usada até a atualidade, que significa “ toda a população”, sendo mais bem traduzida como “meus povos” e não “10 mil povos”. O ideograma chinês [???] significava, na época do Nei Jing, “autoridade”, e sua tradução atual correta seria “sobrenome” e não “família” como aparece na página 17 do primeiro capítulo da tradução brasileira do Huangdi Nei Jing.

Comentários sobre os livros em versão portuguesa das obras referidas:

 Lamento os erros que aparecem nas obras do Dr. Van Nghi sobre as dinastias Han, assunto de conhecimento comum dos estudantes chineses. As duas dinastias Han constituíram um dos períodos da história chinesa mais brilhantes e objeto de orgulho para os chineses, por sua evolução e riqueza. Por esse motivo os chineses são também chamados de povo de Han. É preciso muito cuidado na divulgação de informações sobre a história da China, bem como na tradução dos seus conceitos.

A divulgação e evolução da acupuntura no Brasil foi rápida graças ao esforço de muitos profissionais dedicados a essa terapia milenar. Atualmente, apesar de seu progresso inegável na ciência médica, ainda é frequente a discussão sobre divergências em relação a conceitos entre professores de acupuntura e médicos. Muitas vezes, essas discussões se assemelham mais às divisões ideológicas ou doutrinárias, o que não acontece nas outras áreas médicas de maneira tão marcante.

Tenho a intenção de traduzir mensalmente alguns trechos ou capítulos do Lingshu, livro do Nei Jing, um dos cânones da Medicina Chinesa, e publicá-los no site do CMA-SP, para apresentar uma versão mais compatível dos conceitos de acupuntura à matriz chinesa, em comparação com aqueles traduzidos para o francês, e deste para o português. Espero que esse trabalho possa contribuir para o progresso da Acupuntura/MTC no Brasil, tanto no ensino quanto na prática médica. Também desejo estimular um debate acadêmico de bom nível sobre as várias linhas da acupuntura.

Sobre o início do prefácio da versão para a língua portuguesa, do livro Huangdi Neijing Ling Shu, escrito pelo Prof. Dr. Ysao Yamamura, edição comentada, da editora Center AO: “o presente tratado é a versão do Wang Ping (762 d.C.) com comentários de autores clássicos da época acrescido de explicações e comentários do professor Van Nghi.”

O Nei Jing foi compilado há mais de 2800 anos pelo Imperador Hoangdi (o correto é Imperador Huang ou Huangdi) e pelos seus médicos conselheiros cujas conceituações podem ser aplicadas até os dias de hoje.

Algumas informações adicionais:

Quem foi Huangdi?
Huang= Amarelo e Di= imperador, portanto, Imperador Amarelo. O primeiro Imperador da China, que conquistou e unificou os povos, era um personagem lendário, cuja história era baseada em transmissão oral, ainda que também referido em obras escritas. Teria ele chegado aos cem anos, e sua existência é atribuída a algum período por volta de 2.600 a.C. Por ter uma imagem muito respeitada, várias invenções chinesas foram atribuídas a ele, tais como uso de seda para confecção de roupas, fabricação de carroça com rodas, fabricação de barcos de madeira, construção de casas etc. Também foi atribuído a ele o clássico Nei Jing, obra escrita dois mil anos após sua suposta existência, o que concluímos que nem Huangdi nem médicos conselheiros escreveram essas duas obras clássicas.

O que é o Nei Jing?
O livro clássico Nei Jing é composto de Lingshu e Suwen. O primeiro trata de Acupuntura de maneira geral e o segundo fala dos princípios da MTC. As diversas obras, escritas por autores diferentes, desde os períodos chamados de Primavera e Outono e Estados Combatentes (722-221 a.C.), foram compiladas no período final da dinastia Han do Oeste (206 a.C.-24 d.C.) até a dinastia Han do Leste (25 – 220 d.C.). A partir dessa época, tiveram novas formulações e alterações dos nomes do livro durante a dinastia Tang (618-907 d.C.). Nenhum pesquisador tem certeza quanto à data de início e conclusão dessa obra. Da mesma forma, o nome Huangdi Nei Jing foi criado pelo mestre Huang Pu Jien no século I, pois no passado, os autores omitiam seus próprios nomes e dedicavam suas obras a Huangdi para ganhar mais importância e credibilidade. Essa é a razão pela qual essa obra gera mal entendido entre tradutores ocidentais.

A edição mais antiga preservada até a atualidade, data de 1339, no período da dinastia Yuan (1271-1368). A primeira revisão mais completa do Lingshu foi feita no ano de 1964. A partir de então novas revisões foram feitas com outros livros, inclusive com edições do Nei Jing publicadas na Coreia e no Japão, países que tiveram historicamente muitos intercâmbios culturais com a China.

Os chineses sempre deram importância ao desenvolvimento do estudo da MTC e do Nei Jing, mesmo durante o período em que ela foi proibida na China (1929-1952). Disso decorre a preservação das obras clássicas até a atualidade, no entanto, o Lingshu apresenta desafios que devem ser levados em consideração. A forma literária adotada na obra é de um chinês arcaico: não há separação entre frases, sua gramática é diferente e muitos ideogramas têm significado totalmente diversos dos atuais, ou seja, seu texto é de difícil compreensão mesmo para os chineses de bom nível intelectual na área de MTC. Tanto para o Lingshu como para o Suwen, a leitura exige tradução da versão original em chinês e, mais adequadamente, em chinês da linguagem do passado recente. Se for traduzido em linguagem atual, perde-se a essência e a leitura se torna repetitiva. Portanto, sua tradução é realizada pelos melhores professores de MTC especializados na área, e, ainda assim, conta com a colaboração de equipes de diversas faculdades da China. Nem mesmo na China não há ninguém capaz de ler e compreender o Lingshu e o Suwen sozinho.

Confesso não ser um especialista no assunto, ou seja,  em analisar os livros do Nei Jing, composto pelo  Lingshu e o Suwen, escritos em chinês arcaico. Na minha época de estudo de acupuntura /MTC na China, de 1982 a 1984, vários professores me orientaram a estudar alguns capítulos desses dois livros, os mais voltados à acupuntura, que era meu objetivo. Nunca me pediram para estudar esses livros inteiros porque muitos de seus conceitos já haviam deixado de ser importantes ou eram considerados equivocados na evolução da acupuntura, no entanto, conheço a língua chinesa tradicional e moderna, tendo habilidade na tradução dos textos aos quais me proponho dedicar.

O Lingshu que vou traduzir é baseado em dois livros traduzidos em chinês do passado recente:

  • Revisão do Lingshu, chefiada pela equipe de professores da Faculdade de MTC de Hebe, e com a colaboração de professores das Faculdades de MTC de Nanjing, Shandon, Hospital do Povo do Município do FuZhou e Instituto de Pesquisa de Fitoterapia Chinesa de Harbin, editado pela Editora de Saúde do Povo, em 1980. Esse é um livro para quem quer aprofundar o estudo da MTC e Acupuntura.

  • Seleção de Nei Jing, tendo à frente uma equipe de professores da Faculdade de MTC de Pequim, com a colaboração de professores das Faculdades de MTC de Shanghai, Lianing, Jiansi, Chendu, Nangjing e Shangsi. Esse é um livro que seleciona os capítulos mais importantes do Lingshu e do Suwen, dedicado aos graduados das faculdades de MTC da China.

Esses dois e os demais livros por mim estudados NÃO mencionam a medicina desenvolvida no Vietnam ou em suas escolas médicas.

Na próxima edição do Boletim Informativo do CMA-SP, convido os leitores a participarem de um debate em torno dos conceitos elaborados por essas traduções e aquelas que têm como fonte as versões brasileiras das traduções francesas.
Observação Acadêmica: Minha intenção é preservar a MTC/Acupuntura mais fiel à elaboração original chinesa, e colaborar para o debate científico do assunto, ressaltando sua importância no contexto médico.

Dr. Hong Jin Pai

1979

  • Forma-se pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

1982

  • Conclui a residência em Patologia Clínica no HC-FMUSP.
  • É o primeiro médico do Brasil a fazer o curso de Acupuntura na China.
  • Conclui a pós-graduação em Medicina  Tradicional  Chinesa e Acupuntura pelo Hospital de Medicina Chinesa de Cantão, onde especializou- se em terapia de acupuntura nas áreas de doenças músculo-esqueléticas, neurológicas e em outras especialidades médicas.

1983

  • Conclui a pós-graduação na Faculdade de Medicina Chinesa-Acupuntura de Pequim.
  • Realiza estágios de acupuntura em diversos hospitais de diferentes especialidades:

- Hospital Tong Zhi Men;
- Hospital Pediátrico de Pequim;
- Hospital de Coração de Pequim;
- Hospital Guang An Men;
- Hospital de Instituto de Pesquisa de Acupuntura de Pequim e outros.

1984

  • É indicado para participar  do II Curso Avançado de Aperfeiçoamento em Acupuntura, destinado apenas aos professores da elite de Acupuntura da China. Neste curso apenas um especialista de cada estado (ou província) era selecionado.

1988

  • Inicia o atendimento de acupuntura na Liga de Cefaléia e posteriormente  na Liga de Dor do CAOC da Faculdade  de Medicina da USP.

1989

  • Inicia pesquisa e atendimento de Acupuntura no Centro de Dor da Clínica de Neurologia do HC-FMUSP.
  • É um dos fundadores e atual coordenador do Centro de Estudo Integrado de Medicina Chinesa (CEIMEC), que promove cursos de especialização em acupuntura para médicos.
  • É um dos fundadores da Sociedade Médica de Acupuntura de São Paulo (SOMA-SP), mais tarde denominada Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura de São Paulo (SMBA-SP).
  • Ocupou os cargos de vice-presidência da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura de São Paulo (SMBA-SP) e de vice-presidência da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura (SMBA) de 2002 até 2004.

Atualmente é:

  • Coordenador do CEIMEC;
  • Médico do Centro de Acupuntura e do Curso de Especialização em Acupuntura no IOT-FMUSP;
  • Médico colaborador de Acupuntura do Centro de Dor do HC-FMUSP;
  • Presidente do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo.

 

Sobre a história de Huangdi, em versão chinesa: http://ap6.pccu.edu.tw/Encyclopedia/data.asp?id=4884 , que futuramente traduzirei para o português.


 

 



 

Muitos colegas, quando falam sobre os cursos ministrados pelo CEIMEC dizem: Oh! Aqueles que só sabem tratar a dor!.

Ao longo dos 19 anos de ensino, o CEIMEC tem sido rotulado de ser o especialistaem tratar a DOR e não focalizar outras patologias. Isso provavelmente se deve à nossa forte ligação ao Centro de Dor e ao Curso de Especialização em Acupuntura do Instituto de Ortopedia e Traumatologia, ambos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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