Esclarecimento
Antes de ler os comentários da Dra. Christine Recours Nguyen, leia o anexo e compare as duas traduções do Capítulo Um do Ling Shu, onde o texto original é o mesmo, entretanto as duas traduções são divergentes. Este primeiro capítulo serve de guia para todo o livro. Ora, se já no início do livro elas são conflitantes, subentendemos que toda obra encontra-se pois comprometida.
Esse é o motivo pelo qual insisto em ressaltar que o primeiro capítulo do Ling Shu é fundamental para a compreensão de toda a prática da Acupuntura na Medicina Chinesa. Nele estão descritos os fundamentos e as orientações, desde a anamnese, escolha dos pontos, tamanho e adequação do emprego das agulhas e procedimentos de tratamento. O fato de não traduzir corretamente, provavelmente levará a uma interpretação errônea comprometendo não só toda a obra, como também levando a um ensino equivocado. Como se não bastasse, os comentários por ele emitidos são confusos e parecem não fazer parte do contexto.
Gostaria inclusive, que estas minhas considerações fossem interpretadas não como uma retaliação, mas como uma crítica construtiva.
O uso isolado do Jing é inapropriado, e podemos comprovar essa afirmação na frase “O estudo dos Jing devem ter continuidade...” onde o ideograma Jing pode ter significados diversos, sendo por assim dizer, inespecífico, podendo ser interpretado desde como “livro importante”, até “trajeto”, “por meio de” ou “meridiano”; por esse motivo, o Yang Ming Jing foi erroneamente traduzido como meridiano Yang Ming. Esse seria mais um erro da tradução francesa?
Quando teci os comentários a respeito da tradução do Nei Jing, os mesmos foram enviados para apreciação. Diante de uma negativa de resposta, senti-me no dever de publicá-los.
Com todo respeito que tenho ao Dr. Nguyen Van Nghi, um dos pioneiros na introdução da Acupuntura no Ocidente, acho seu modo de agir individualista, necessitando de ser reparado em alguns conceitos por ele emitidos, dentre os quais a “que apenas de 30 a 50% dos dados na MTC são entendidos e que o estudo dos Jing deve ter continuidade”.
Na China, o estudo do Nei Jing é feito por grupo de estudiosos em diversas Faculdades de Medicina Tradicional Chinesa e os textos originais são comparados com as edições existentes no Japão e na Coréia, com a finalidade de evitar erros e conflitos na interpretação e tradução. Importante levar em consideração que esses professores são formados e especializados nessas Faculdades, e que nenhum deles é discípulo de outrem, muito menos que tenham aprendido MTC com algum membro da família. Isto significa dizer que apenas no seu ambiente universitário procedem ao intercâmbio de conhecimentos e análise das controvérsias.
Acredito que o Dr. Van Nghi não teve uma formação acadêmica adequada por não ter tido a oportunidade de cursar uma Faculdade de Medicina especializada em MTC/Acupuntura, devido razões que fugiram de sua vontade, por razões históricas e geopolíticas.
Partindo-se desse raciocínio, concluímos que as razões principais que levaram o Dr. Van Nghi a interpretar inadequadamente os conceitos de MTC, foram o desconhecimento da Língua Chinesa arcaica e atual.
Num passado não muito distante, os conceitos emitidos pelo Dr. Van Nghi tiveram um valor inestimável pelo fato de ter sido pioneiro na área da Acupuntura no Ocidente.
Lembro-me de uma palestra por ele proferida aqui em São Paulo, no advento da AIDS, quando em resposta a um médico, ele afirmou que tal síndrome não existia, que era pura invenção.
Também tenho meu lado pioneiro. Fui o primeiro médico brasileiro a estudar MTC/Acupuntura na China, mesmo correndo sérios riscos pelo fato de ainda transcorrer durante a Revolução Cultural. Ao invés de três meses, como originalmente planejado, permaneci em terras chinesas por dois anos e meio, em condições alimentares precárias num ambiente hostil devido à ideologia política existente na época. O amor que eu sentia pela Acupuntura e o acolhimento que tive pelos professores, me deram motivação para enfrentar quaisquer adversidades, não desistindo assim do meu intuito: aprender corretamente essa arte milenar.
A razão da dificuldade de interpretação da Língua Chinesa arcaica corrobora com interpretações equivocadas dos conceitos reais, originando obras de conteúdo muito diferente do original, ocorrendo isso também na linguagem chinesa atual que é de bem mais fácil compreensão.
Diante do exposto, a comparação entre os dois textos traduzidos do mesmo capítulo, evidencia uma diferença gritante, mostrando que o texto traduzido pelo Dr. Van Nghi é inadequado tendo levado a uma forma errônea de exercer a Acupuntura/MTC no Ocidente.
Outro personagem controverso, Soulié de Morant, um conhecedor da cultura chinesa precário, dificultou ainda mais o reconhecimento da MTC pela comunidade médica ocidental com sua obra literária, e que só serviu para por mais uma pedra no caminho da evolução científica da acupuntura. Sorte que foi totalmente esquecido.
Nos anos 1980-1990, num consenso mundial do qual o Dr. Nguyen Van Nghi também participou, foi adotada a nomenclatura internacional da MTC/Acupuntura, no entanto esta nomenclatura está abandonada e está sendo aperfeiçoada com a colaboração dos professores da China e de outros países. Exemplo para justificar o motivo dessa mudança está no uso da expressão “Qi vazio” para falar de uma deficiência do Qi - algo bem mais que o traduzido como “energia”, mas algo mais dinâmico, que transforma, que promove, que produz. Assim, o correto seria chamar “Qi deficiente”, porque se ele é vazio, ele não existe, e não existindo, o indivíduo está morto.
Infelizmente o ideograma Qi, a palavra chave da Acupuntura /MTC, não é corretamente usado pelo Dr. Van Nghi.
Falar chinês é relativamente simples, principalmente se você tem pais chineses, porém entender a literatura chinesa antiga é bem mais complexo, necessitando estudar profundamente com orientação de professores especializados, motivo pelo qual essa literatura arcaica constitui uma disciplina obrigatória nas Faculdades de Medicina Tradicional Chinesa na China. Acredito que na época de aprendizagem do Dr. Van Nghi, ainda não existia essa disciplina nas faculdades, motivo pelo qual suas interpretações do Nei Jing são inaceitáveis.
Importante frisar que na atualidade, os alunos dessas faculdades para melhor compreenderem a MTC, dedicam metade do seu estudo para o aprendizado dos conceitos da Medicina Ocidental.
Julgo também necessário dizer que minha postura não tem a função de polemizar, mas apenas sinto-me na obrigação de difundir o que é correto. Se os conceitos emitidos pelo Dr. Van Nghi estão certos, de nada valeu o que aprendi na China, e mesmo o que os estudiosos estão investindo no aperfeiçoamento da MTC/Acupuntura atualmente está sendo em vão. Aí eu me pergunto por qual razão os seguidores do Dr. Van Nghi insistem em afirmar que só eles praticam a “autêntica” acupuntura chinesa?
Os antigos mestres chineses se utilizavam de espinhas de peixe para estimular os pontos, alguns passavam as agulhas na sola do calçado com a finalidade de “energizá-las”, pelo motivo de estar em contato com a terra (Yin). Atitude essa inaceitável nos dias de hoje. Acha coerente que ainda se dê o diagnóstico de gravidez ou até mesmo se determine o sexo do bebê através do pulso? E a “cura” de infecções pela “dissipação “do Vento-Calor”“?
Como já falei anteriormente, no curso médico de MTC na China é obrigatório o estudo da nossa medicina convencional, desde as cadeiras básicas de anatomia, fisiologia, farmacologia, patologia e semiologia, até fisiopatologia, medicina interna e terapêutica clínica. Esse conhecimento é integrado à MTC como um todo, isto é, acupuntura, fitoterapia entre outros. Ao término da graduação, o médico necessariamente é obrigado a fazer especialização por um período de 2 a 3 anos A acupuntura vem passando por um processo de modernização natural decorrente dessa integração das duas medicinas, aumentando com isso a precisão no diagnóstico e eficácia no tratamento. A pulsologia e exame por meio da língua perdem paulatinamente seu lugar e o uso de substâncias químicas ganham cada vez mais espaço quando usadas para melhorar a eficácia das agulhas, ou associado ao uso de correntes elétricas, e outros meios físicos.
Hoje em dia, na China o estudo dos livros Jing não possui tanta importância, considerando-se que a maioria deles foi classificada como de conhecimento inapropriado, até impedindo o avanço do desenvolvimento dessa arte milenar.
Sem dúvida há necessidade de se aprimorar constantemente o conhecimento da acupuntura, investindo fortemente em pesquisas clínicas de qualidade seguindo as recomendações do STRICTA (Standards for Reporting Interventions in Clinical Trials of Acupuncture) e outras com a finalidade de desvendar os mecanismos de ação da acupuntura e suas aplicações, propiciar melhor atualização dos professores, e consequentemente melhor formação dos médicos acupunturistas, além do critério de escolha da qualidade dos livros didáticos.
Os livros de acupuntura que a equipe do CEIMEC está escrevendo ou a tradução dos livros chineses, segue as seguintes etapas:
> Passo 1- tradução da língua inglesa para a língua portuguesa pelos
> colaboradores do CEIMEC;
> Passo 2- confrontação da tradução com o original na língua
> chinesa pelo Dr. Hong Jin Pai;
> Passo 3- revisão da língua portuguesa por um revisor capacitado;
> Passo 4- nova confrontação com a língua chinesa pelo Dr. Hong
> Jin Pai;
> Passo 5- revisão final pela Equipe do CEIMEC.
Expostas minhas razões, recomendo a necessidade de sua reciclagem e dos seus discípulos, sabendo-se que o Ling Shu hoje serve apenas como fonte de pesquisa da literatura antiga.
Quando na tradução de obras dos professores chineses que se faça uma detalhada revisão e confrontação com os livros originais com auxílio de um bom conhecedor da língua, para não cair no mesmo vício dos livros “suspeitos” adotados em algumas escolas, principalmente, as que formam acupunturistas não médicos, com graves erros de tradução e interpretação, gerando problemas que chegam inclusive a comprometer a saúde dos pacientes.
Espero sinceramente que meu ponto de vista tenha esclarecido eventuais dúvidas e polêmicas.
Atenciosamente,
Dr. Hong Jin Pai
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