Um debate? Que debate?
Parece que está se formando no Brasil um debate sobre as traduções do Dr. Nguyen Van Nghi. Ele gostava das controvérsias desde que fossem fudamentadas e construtivas. Todos, desde que não as utilizem para denegrir, tem o direito, e até mesmo o dever, de comunicar suas observações se elas podem trazer algum enriquecimento. Ele não dizia, aos 90 anos que « apenas de 30% a 50% dos dados da MTC são entendidos, e que o estudo das jing devem ter continuidade » ? Esses jing, esses grandes clássicos, representam os únicos fundamentos do pensamento médico chinês, e sem conhecê-los intimamente não se pode, ele sempre repetia, avançar.
O debate desencadeado é uma polêmica falsa e inútil, que mostra a ignorância no contexto histórico da acupuntura no ocidente da qual Nguyen Van Nghi foi um pioneiro.
Como todos os pioneiros ele teve que carregar sozinho um trabalho de grandes proporções, decifrando incansavelmente o percurso muito fechado na direção do conhecimento da acupuntura. Graças aos esforços insistentes de pioneiros como ele, o caminho seguido por nossos contemporâneos tornou-se transitável. Hoje é tão simples enxergar as poucas pedras encontradas no meio desse caminho traçado com dificuldade!
Realmente existem alguns erros, em geral de tipografia, digitação, e reconhecidos pelo próprio Nguyen Van Nghi. As censuras referentes às dinastias han e Hua Tuo são pedras sobre as quais alguns gostam de polemizar exageradamente. Mas ele tinha tanta sede de saber, e era tão apaixonado por suas descobertas que me dizia que demorar-se nessas poucas pedras diminuia o rítmo da marcha e impediam de enxergar mais longe. Quando terminava um livro ele se dedicava totalmente ao novo, sem olhar para trás. Entendo perfeitamente que um chinês ou um purista possa confundir-se em 2011 por esses erros, mas naquela época era prioritário concentrar-se especialmente sobre os problemas fundamentais. É certo também que ele não estava cercado, como estamos hoje, por uma equipe de antropólogos, de especialistas em cultura chinesa, de historiadores e de filósofos, e nem era ajudado pelos recursos de informação atuais. Ele era sozinho, contava apenas com sua enorme capacidade de trabalho, num domínio ainda pouco claro. A obra que ele nos legou tem, por isso mesmo, mais mérito e é mais grandiosa.
Quanto ao termo « qi », foi traduzido por Soulié de Morand nos anos 30 como « energia » e ainda é traduzido como « souffle » (= sopro, fôlego) pelos especialistas em cultura chinesa. Porém, todos sabem que nos anos 1980-90 Nguyen Van Nghi adotou a nomenclatura internacional (da qual ele participou) e que depois disso usou indirentemente qi ou energia. Medicina energética significa simplesmente « medicina de qi » e não é necessário utilizar dicionário para entender isso! O mal entendido é pelo fato de atualmente o termo « energético » ser muito usado por pseudo médicos, que não tem nada a ver com a acupuntura. No entanto, os bons estudantes não fazem essa confusão infantil !
Muita gente pretendeu rivalisar com Nguyen van Nghi porque falam chinês e passaram alguns meses nas escolas « para ocidentais » que formigam na China! Os grandes mestres tinham grande respeito por ele e discutiam isso com frequência nos grandes congressos internacionais nos quais ele era quase sempre presidente ou vice presidente.
Muita gente pôs em dúvida uma acupuntura chinesa « autêntica » confrontada com uma acupuntura vietnamita « deformada » ! No entanto, Nguyen Van Nghi que falava chinês ( a avó dele era chinesa), vietnamita, francês e inglês só pensava na acupuntura e não em uma acupuntura. Com certeza seus primeiros livros utilizam uma nomenclatura do tipo vitmamita, que mereceria, atualmente, ser modernizada, da mesma forma que os livros dos especialistas em cultura chinesa, utilizando a nomenclatura Wade-Giles ou EFEO. Mas, que eu saiba, isso não altera em nada a pertinência das idéias expressas em suas obras.
Para mim está claro. Devemos continuar lutando pela continuidade do trabalho de Nguyen Van Nghi, pela expansão da acupuntura e pelo bem dos pacientes. Realizar ajustes oportunos ou retificações circunstanciais não é por em dúvida a enorme contribuição dele.
Realmente, sua tradução do lingshu (e dos outros jing), longe de ser un texto ideal, estático, inerte, é uma base « viva » comunitária, gerando debates em busca de precisão e de reflexão, que o alimenta e esclarece, como uma aquarela, na qual cada um põe um pouco de sua cor. Os que se colocarem além das polêmicas e das afirmações do ego, estarão contribuindo para o embelezamento da obra, e não o estarão denegrindo. Caso contrário, algumas críticas demonstrarão apenas o desejo de uma glória banal e pretenciosa.
Espero, de coração, que no Brasil não se trate de situação extrema, que acarrete um pretenso problema de « saúde pública » (sic), apregoado com segundas intenções, para mascarar os reais problemas de “saúde” das pequenas traduções dos manuais chineses que se pretende fazer.
São Paulo, 03 de junho de 2011
Dra. Christine Recours Nguyen
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